Sexta-feira, 31 de Março de 2017
Em 2017, os Missionários Combonianos estão a celebrar os 150 anos da fundação do Instituto. O P. David Glenday [na foto], que foi superior geral de 1991 a 1997 e, agora, é secretário geral da União dos Superiores Gerais (USG), em Roma, conta-nos o significado e a importância que esta efeméride tem para ele. “Eu nasci na Índia, de mãe irlandesa e pai escocês, e assim penso que – diz o P. David – não é estranho eu estar especialmente grato pelo facto de São Daniel Comboni, desde o início, querer que o seu Instituto fosse internacional, ou ‘católico’, como ele gostava de dizer. O Deus que ele descobriu e experimentou era um Deus para o mundo inteiro, envolvendo toda a Igreja numa missão dirigida a todos os continentes, nações, línguas e culturas. Somente estando aberto a membros de todas as nações é que este Instituto podia ser testemunha efectiva e credível da missão de Deus no mundo.”

 

P. David Glenday,
num encontro da USG,
com o Papa Francisco,
em Roma.


 

Celebrar o 150º aniversário da fundação do Instituto, por São Daniel Comboni, é muito pessoal. É a celebração de uma graça muito diversificada que me acompanhou desde os meus primeiros anos, e que eu fui aprendendo a apreciar e entender profundamente ao longo dos aconteci- mentos e diferentes fases da minha caminhada missionária. Para mim, esta celebração é gratidão, em especial a minha gratidão para com S. Daniel Comboni, pelas maneiras como o Instituto conformou profundamente e enriqueceu a minha vida. Gostaria de partilhar somente 3 entre muitas razões para esta minha gratidão.

Experiência de Deus e de fé

No seu “Plano para a Regeneração da África”, Daniel Comboni deixa bem claro que vive a sua missão, incluindo todas as iniciativas que a missão o leva a assumir, como um compartilhar da única missão de Deus.

Reflectindo e rezando a sua primeira e profundamente difícil experiência de missão na África Central, descobre que lá, circundado pela perda e desastre aparente, ele acabou de fato conhecendo o Deus vivo, um Deus-em-comunidade e um Deus em missão, um Deus que sai até aos confins da terra, levando-nos com Ele, se o deixarmos. É por isto mesmo que, quando Comboni funda o seu Instituto, imagina-o como um “pequeno Cenáculo”, Pentecostes actual, um lugar onde os humanos somos introduzidos no mistério missionário da Trindade.

É esta a razão porque a verdadeira vida deste Instituto é uma vida no Espírito, e pela qual um modo adequado de celebrar os 150 anos significa que o melhor ainda está para vir. É esta a razão pela qual pode muito bem acontecer que a fragilidade e limites atuais do Instituto, em vez de constituírem obstáculo à missão, podem ser a forma de descobrir onde e como o Espírito nos está conduzindo em direcção ao futuro. Por outras palavras, esta celebração é tanto do futuro como é do passado.

Esta obra é católica

Eu nasci na Índia, de mãe Irlandesa e pai Escocês, e assim penso que não é estranho eu ser especialmente grato pelo facto de S. Daniel Comboni, logo de início, querer que o seu Instituto fosse internacional, ou “Católico”, como ele gostava de dizer. O Deus que ele descobriu e experimentou era um Deus para o mundo inteiro, envolvendo a toda a Igreja numa missão dirigida a todos os continentes, nações, línguas e culturas. Somente sendo aberto a membros de todas as nações é que este Instituto podia – Comboni sentiu e entendeu com clareza – ser testemunha efectiva e credível da missão de Deus no mundo.

Este caminho nunca foi, nem será fácil para nós Missionários Combonianos, e já tivemos nossas lutas e falhas ao longo da história. Há, no entanto, algo muito belo pois, algumas vezes apesar de nós mesmos, sempre acabámos voltando atrás, de regresso ao desejo e intuição do nosso fundador. No fundo dos nossos corações, sabemos que somos chamados a ser uma pequena semente no mundo daquela família pela qual o Pai anseia e deseja.

Como é evidente, eu estou profundamente agradecido a muitos Missionários Combonianos. Foi-me dada a graça e a oportunidade de pertencer a este Instituto, as quais eu devo, sem dúvida alguma, à intuição e visão do Fundador.

Uma missão para todo o discípulo

Ao celebrarmos 150 anos desde que Daniel Comboni teve a coragem de fundar o seu Instituto, somente podemos admirar-nos ante a vastidão, vitalidade e acuidade da sua visão. De novo, logo desde o início, ele foi claro, tanto no pensar com no agir, em como Deus tinha partilhado a sua missão com a igreja inteira, com todos e cada um dos baptizados e apesar das muitas dificuldades que encontrou, manteve-se sempre firme no seu propósito e visão.

Cada bispo, sublinhou, foi chamado e ordenado para aceitar a responsabilidade pela evangelização do mundo inteiro e não somente pela sua diocese. Foi pois ao Concílio Vaticano I, para convencer disto os bispos. O seu Instituto não devia ser constituído somente por padres, mas também por leigos totalmente dedicados à missão. Os Irmãos que tiveram uma contribuição tão rica durante estes 150 anos, sem os quais este Instituto não seria comboniano.

Dentro da mesma dinâmica, Daniel Comboni envolveu também mulheres na missão desde o início e fundou o Instituto das suas Irmãs. Os 2 Institutos são 2 pulmões do mesmo corpo, e o conjunto somente pode respirar e viver bem quando esta verdade é vivida na prática diária da missão de comboniana. O Fundador lançou mão de leigos, mulheres e homens, de outros Institutos missionários e grupos, comunidades de Irmãs contemplativas; antes de ser teoria, esta foi para Comboni a realidade da missão, uma realidade que continua a desafiar e provocar.

Nesta linha de pensamento, um aspecto particularmente belo e evocativo da fundação do nosso Instituto por S. Daniel Comboni são os relacionamentos e as amizades. Ele conviveu com tantas figuras de grandes missionários do seu tempo: S. João Bosco, S. Arnold Jansen, fundador dos Missionários do Verbo Divino, com o P. Jules Chevalier, fundador dos Missionários do Sagrado Coração, etc. Também nisto a celebração dos 150 anos nos desafia e nos orienta para o futuro.

Tal com o papa Francisco diz, ao início do Evangelho da Alegria (EG 13), a alegria do evangelizador sempre brilha contra o pano de fundo da memória agradecida. É esta alegria e este tipo de memória que me enche e me entusiasma mais ainda hoje do que no dia em que encontrei Daniel Comboni, há muitos anos. De forma simples, estou contente por este santo missionário ter feito o que fez.