Sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Aterrei em Bangui, capital da República Centro-Africana, depois de fazer Roma-Adis Abeba e regressar à África Central. Visitei comunidades espiritanas nas dioceses de Bangui, M’baiki e Bouar, o que implicou atravessar o país de lado a lado, desde a fronteira da República Democrática do Congo à dos Camarões. Pude encontrar os bispos destas três dioceses e partilhar alegrias e angústias dos meus confrades e dos muitos leigos que com eles vivem e fazem a missão acontecer. [Texto e fotos de padre Tony Neves, missionário espiritano]

Começo por fazer uma declaração de interesses: os Missionários Espiritanos são os pais espirituais da Igreja Católica neste país e, por isso, há uma ligação afetiva a esta terra e a esta Igreja local. Além do mais, o arcebispo de Bangui, o cardeal Dieudonné Nzapalainga, é também missionário do Espírito Santo.

Entrada da catedral de Bangui a evocar a abertura da porta santa no jubileu da Misericórdia pelo Papa Francisco.

Cultura hospitaleira e eleições

Fiz milhares de quilómetros e foi nos caminhos que eu mais aprendi, no que vi, ouvi e conversei. As pessoas são, regra geral, simpáticas, alegres e acolhedoras. Vestem-se com beleza, elegância e muito colorido. Cantam e dançam muito bem. As paisagens são de sonho, como sempre acontece em zonas tropicais. Os hábitos alimentares são muito diferentes dos que temos na Europa (e muito bem!), não estranhando encontrar na mesa serpente, crocodilo, mandioca, inhame… ou bebidas extraídas das palmeiras ou do milho. E, claro, as frutas mais comidas são a manga, a papaia e o abacate… deliciosas! Encontrei plantações de café e de cacau, produtos de exportação.

Os compromissos missionários seguem uma intervenção muito musculada da Igreja neste país que vem de uma terrível e prolongada guerra civil, sobretudo provocada pela tentativa do Boko Haram de tomar de assalto o país para o transformar num Estado fundamentalista islâmico.

O país foi sendo acalmado aos poucos pela intervenção da ONU, da Rússia, da China, do Ruanda… Mas a opinião mais generalizada que pude recolher em inúmeras conversas é que há exércitos a mais no terreno, estando a levar as grandes riquezas, pois controlam os diamantes, o ouro, as madeiras…

Os índices de violência e insegurança são altos, como consequência das más condições de vida da maioria da população.

Cheguei à RCA no início da campanha eleitoral e saí do país no dia seguinte às eleições. Os atropelos na política são constantes, a ponto de o Presidente mudar a Constituição para se poder recandidatar. Pôs, como de costume, a máquina do Estado ao serviço da sua campanha e os resultados foram os esperados: o Presidente ficou com 76,15% dos votos – dados oficiais! A liberdade, o respeito pelos direitos humanos, a transparência na governação e nas contas públicas… melhoraram depois do fim dos combates, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

Mercado de rua na estrada para Cantonnier, fronteira com os Camarões.

Combater a pobreza extrema

A pobreza da maioria da população é extrema e as desigualdades sociais gritantes. Há uma enorme diversidade étnica e cultural, mas o país consegue exprimir-se numa língua nacional única: o sango.

As estradas estão, na sua maioria, em péssimo estado, algumas delas intransitáveis. Este caos provoca enormes dificuldades de circulação, a que se acrescentam altos custos de viagens e transportes. E, claro, são graves e frequentes os acidentes, igualmente provocados pela forma irresponsável como se conduz e pelo péssimo estado da maioria das viaturas. Percorrê-las é missão de alto risco, pois escapei de diversos acidentes e estava dentro de um automóvel quando rebentou um pneu e o carro despistou!

Ao longo das estradas vemos muita gente a trabalhar nos campos ou a circular com grandes volumes à cabeça. Cada casa é uma loja comercial, podendo os passantes comprar o que as pessoas cultivam ou produzem, desde mandioca ou banana, até galinhas e porcos ou cestos e outros utensílios de casa ou trabalho. Notamos que a maioria das casas nas aldeias têm muros de barro e cobertura de palha ou folhas de bananeira ou palmeira.

Boa parte das crianças e jovens não vão à escola e as que vão ficam-se por uma escolaridade baixa, tal a má qualidade das estruturas escolares e da formação de professores, neste pós-guerra civil. Também a saúde é muito maltratada, bastando olhar (ou visitar) os hospitais e centros e saúde.

A indústria já teve melhores dias e – dizia alguém com humor – a única fábrica que funciona a sério é a das cervejas! A distribuição de água e eletricidade é privilégio das grandes cidades, não chegando sequer aos bairros periféricos.

O povo vive da agricultura e, sobretudo, do comércio informal que acontece nos grandes mercados populares e ao longo de todas as estradas do país.

Impressionam os altos índices de poluição das águas, bem como a aposta do povo nas queimadas por ocasião da estação seca, aquela que eu encontrei.

Catedral de M’Baïki.

Católicos, na maioria

A maioria dos centro-africanos afirmam-se cristãos, embora seja numerosa e interveniente a comunidade islâmica. Há compromissos eclesiais sérios nos âmbitos da educação, saúde e desenvolvimento.

Vivi, com alegria, o Natal na capital. Tive direito a três missas de Natal, todas elas muito festivas e participadas por multidões de pessoas: a do Galo, numa comunidade a que se seguiu a ceia de Natal; duas no dia, uma delas numa grande paróquia de periferia, tendo ido jantar com o cardeal, também ele missionário espiritano. São numerosas as vocações sacerdotais, religiosas e missionárias e a Igreja cresce.

Vivi a celebração festiva dos cem anos da catedral de Bangui, construída pelos Espiritanos. E pude ouvir da boca da voz mais profética e corajosa do país, o cardeal Nzapalainga, o desafio às autoridades para que tomem medidas mais concretas para melhorar as condições de vida dos centro-africanos. Gritou bem alto: “Não se pode continuar a dizer que está tudo bem na RCA! O povo quer a paz. Já sofreu muito. A paz significa construir juntos o país!”.

O actual Bispo da diocese de M’Baïki, D. Jesús Ruiz Molina, espanhol, é missionário comboniano.

Padre Tony Neves, missionário espiritano