Conheci D. Paulino Lukudu Loro em 1975, quando era administrador apostólico da diocese de El Obeid. Era a minha primeira missão no Sudão. Ambos tínhamos 35 anos e tornámo-nos de imediato amigos. Permanecemos assim mesmo quando fui para outras missões: em Nyala, no Darfur, e em Abyei, entre os denka do Sudão do Sul. A nossa amizade continuou também quando o reencontrei em Juba em 2010: ele era o arcebispo metropolita da arquidiocese de Juba, eu era o provincial dos combonianos no Sudão do Sul.
Tenho de usar a minha imaginação para descrever a primeira parte da sua vida; não gostava muito de falar do seu passado pessoal. A sua atenção e as suas preocupações estavam centradas na triste situação do seu país, com uma guerra civil que continuava desde 1955.
Nasceu em Juba (Sudão do Sul), a 23 de Agosto de 1940. Durante a sua infância e a sua juventude – concluiu os seus estudos nas escolas da missão – os missionários, desde os anos 1930, tinham iniciado muitos projectos para o desenvolvimento do país: escolas de todos os tipos e graus, programas para o controlo das doenças tropicais, grandes hospitais e pequenos dispensários por toda a parte, plantações de café, chá, teak, e muitos outros projectos. Em 1964, o governo de Cartum expulsou--os a todos: no Sudão do Sul permaneceram muitos católicos, poucos padres e todos jovens, com demasiadas coisas para fazer e rodeados de muita confusão por todo o lado.
Naquela triste situação, o jovem Paulino ter-se-á recordado de como era diferente a vida na sua aldeia, Kwerijik, perto de Juba, antes da expulsão dos missionários e sentiu a chamada do Senhor que o convidava a ser missionário comboniano. Mas não deve ter sido fácil passar da sua cabana de Kwerijik para o noviciado comboniano de Florença; alguns dos seus companheiros, de facto, depressa voltaram atrás, mas ele ficou. Fez os votos temporários a 9 de Setembro de 1967, os perpétuos a 9 de Setembro de 1969 e a 12 de Abril de 1970 foi ordenado sacerdote na catedral de Verona.
Depois disso voltou para o seu país e desenvolveu durante um breve período de tempo o seu serviço à Igreja do Sudão do Sul juntamente com outros padres sudaneses. Depois, em 1974, depois do acordo de Adis Abeba, a congregação da Propaganda Fide decidiu reconstruir a hierarquia da Igreja católica no Sudão. E assim, o P. Paulino tornou-se D. Paulino, administrador apostólico de El Obeid. Tinha 32 anos e, de um momento para o outro, viu-se “bispo” (será consagrado dia 27 de Maio de 1979) de uma diocese tão vasta como três vezes a Itália.
A diocese de El Obeid encontra-se a Norte do Sudão e, portanto, um dos seus primeiros deveres como bispo foi ter de aprender o árabe do Norte, muito diferente do árabe do Sul do país.
As estruturas da diocese ainda estavam em andamento, era preciso inventar muitas coisas, o mundo muçulmano não facilitava certamente a vida da Igreja e a maior parte dos cristãos eram imigrados do Sul do país, desprovidos de tudo e desenraizados da sua cultura tribal.
Naquele período veio duas vezes visitar a missão de Nyala, onde eu me encontrava. Era verdadeiramente um pastor que visita o seu rebanho, preocupava-se com pequenas coisas dos confrades que lhe estavam confiados: a boa saúde, a serenidade e a felicidade de estar naquela missão. Em 1983 tornou-se arcebispo metropolita de Juba e a mim, naquele tempo, foi-me pedido para ministrar o Curso de Orientação Espiritual do seminário nacional de Cartum. Mesmo se distantes fisicamente, a amizade e o espírito de fraternidade permaneceram vivos em nós; encontrámo-nos de novo em 2010, quando fui mandado para Juba como provincial dos combonianos do Sudão do Sul.
A diocese de Juba, como todas as dioceses do Sudão, estava num estado um pouco lastimoso; a guerra civil tinha impedido qualquer organização estável, qualquer progresso, mesmo mínimo, das várias instituições diocesanas. Até mesmo o seminário nacional, que se encontrava em Juba, tinha sido abandonado e tornado morada de símios e ratos. Mas existiam sempre também as pessoas. As instituições, as construções podiam esperar tempos melhores. E assim a sua atenção, no início do seu ministério episcopal em Juba, concentrou-se nas pessoas: os religiosos, os seus padres e tantos pobres que em cada dia batiam à sua porta.
Reorganizou a vida das Irmãs do Sagrado Coração e dos Irmãos de São Martinho de Porres, duas congregações locais de direito diocesano. Durante a guerra civil, a vida dos padres diocesanos tinha sido um tanto difícil. O novo arcebispo fez com que se sentissem novamente uma família, da qual ele era o irmão mais velho. Mesmo para com os pobres, que em Juba sempre foram muitos, D. Paulino sempre foi um pai bom, que nunca mandou ninguém embora de mãos vazias.
Intensificou o programa educativo da diocese. Cada paróquia tinha, e tem, a sua escola de Ensino Básico, com milhares de alunos. Cada paróquia tinha também um pequeno dispensário, onde os pobres podiam encontrar um enfermeiro e os medicamentos para as doenças mais comuns, gratuitamente.
Com a colaboração de algumas congregações religiosas abriu, também em Juba, uma excelente escola para enfermeiros, que continua ainda agora a formar pessoal paramédico para todo o Sudão do Sul.
Em 2011, no fim da guerra civil que levou o Sudão do Sul à independência do Norte do país, com a colaboração dos Combonianos, erigiu na diocese uma estação de rádio FM para informar, instruir, curar as feridas da guerra e ajudar a discernir o caminho a seguir. 55 anos de guerra civil tinham destroçado tudo e todos. Numa situação quase desumana, ele, com a sua proximidade à gente, com a sua coragem de esperar, mesmo contra toda a esperança, e com a sua abertura e humildade em colaborar com quem tinha mais força do que ele, conseguiu infundir coragem e esperança em todo o povo desesperançado e maltratado durante tantos anos.
O Sudão do Sul foi sempre vítima de injustiças grosseiras; por exemplo, em todo o país, havia só uma escola secundária, em Rumbek. Para obviar a esta situação, que de facto paralisou a juventude do Sudão do Sul durante longo tempo, D. Paulino, nos inícios do ano 2000, favoreceu a abertura da Universidade Católica do Sudão, em Wau. Foi um início humilde, mas que abriu o coração de tantos jovens.
Com a sua pessoa, pelo contrário, não se preocupava muito. A sua casa encontrava-se como a tinha deixado o bispo comboniano italiano quando fora expulso, sem trabalhos de modernização, até 2019. Havia uma espécie de portaria, uma casinha baixa com uma pequena varanda.
Durante os 36 anos em que D. Paulino foi arcebispo de Juba, a portaria mudara de função: tinha-se tornado ponto de encontro dos pobres que procuravam esmola, lugar de encontro de quantos tinham algum conflito a resolver e um ponto de escuta de quem tinha um problema e não sabia a quem recorrer. Dos pobres ocupava-se uma religiosa, dos outros ocupava-se o bispo, pessoalmente. Era a gente que queria que assim fosse. E ele fazia-o de boa vontade. Sempre.
Um último aspecto significativo da sua identidade era o amor pelos seus padres. Em Juba ainda não há uma Casa do Clero, e então os padres idosos e doentes eram acolhidos pelo arcebispo na sua casa. Aconteceu-me algumas vezes tomar o pequeno almoço com eles. Havia um genuíno espírito de família, verdadeiramente invejável. Um velho padre nem sempre é a pessoa mais agradável que se possa encontrar e com quem viver. Isso também se notava na casa do arcebispo de Juba. «Mas são os meus padres, disse-me, gastaram a vida pela Igreja como eu e, na alegria como na dor, tornamo-nos irmãos».
D. Paulino era isto aos meus olhos: um comboniano, um homem de Deus, um bispo da Igreja católica que, em tempos não fáceis para o Sudão do Sul, se deu todo pelo bem da sua gente, do seu país e da Igreja que o Senhor lhe tinha confiado.
Os apóstolos que viram o Senhor Ressuscitado foram as colunas da Igreja primitiva, uma realidade inteiramente nova. D. Paulino, tendo visto que a Igreja podia fazer ressurgir o seu país e introduzi-lo numa fase inteiramente nova, foi uma coluna da jovem Igreja católica em El Obeid e em Juba.
Significativamente, o Senhor chamou-o a si segunda-feira de Páscoa, 5 de Abril de 2021. Os exemplos que deixou ajudarão durante muito tempo estas duas Igrejas a seguir o Senhor com confiança, com optimismo e com alegria, como aprenderam a fazer sob a sua orientação durante tantos anos.
(P. Luciano Perina, mccj).